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Crítica de Cinema

Histórias de Uma Cena

Crítica de Cinema é algo recente na minha experiência profissional. Comecei por escrever alguns textos sobre filmes que sempre me fascinaram e intrigaram particularmente. A partir daí, quando vejo uma obra nova, existe sempre a possibilidade de realizar um texto original sobre esse mesmo filme.

"Histórias de Uma Cena" é o nome desta iniciativa, começou através de publicações nas redes sociais, e agora deixo-os também aqui!

"Dead Poets Society", Peter Weir
Analisando a educação na sua perspectiva mais clássica, como algo que, por vezes, pode limitar a integridade do pensamento crítico e a simplicidade e pureza da imaginação que existe em cada um de nós, através da imposição de ideias estipuladas como corretas em relação ao que se julga ser relevante para a evolução humana, concluo que há aspetos não muito benéficos para os mais jovens. Na minha perspetiva, não será possível afirmar que temos um sistema educacional justo e equitativo em relação ao que considero, pelo menos, ser a poesia e a sua missão para com o leitor e mesmo para com o seu criador.
Porém, seria injusto e ingrato afirmar de uma maneira geral que as escolhas do nosso sistema educativo definem todas as conversas decorrentes nas salas de aula, sendo que cada professor tem a sua maneira distinta de relacionar a matéria com as diferentes realidades que nos invadem ao longo dos anos. Ainda assim, como poderá a poesia integrar-se numa ambiente mais jovem? Será possível utilizar os telemóveis e computadores para criar maior interesse à volta da poesia?
Quanto peso poderão quatro paredes tão exaustas e carregadas de história aguentar sem se deixar cair assim que toca a campainha?

Ao longo dos tempos vai-se tornando mais difícil de conseguir chegar, sobretudo, aos mais jovens através da poesia e daquilo que a mesma traz consigo. Uma energia diferente em cada verso, uma dor abafada e escondida por detrás das letras, um mistério indecifrável para o leitor e, às vezes, para o criador e, simultaneamente, uma fome que não se sacia. E, mais importante ainda, a naturalidade com que os poemas são escritos e como por várias vezes não têm um significado em concreto, mas conseguem transmitir imenso sentimento para o leitor.
Em tempos como este é de grande importância dar relevância ao improvável, conseguir olhar para novos desafios com um olhar mais profundo, aumentar as probabilidades de tudo o que surge ao longo da vida e estar sempre aberto a esses novos caminhos. O desenvolvimento pessoal é um dos aspetos mais importantes para ter a iniciativa de escrever e ler poesia, poder criar uma personalidade mais forte e, possivelmente, artística.

"Oh Capitão, Meu Capitão", como poderemos reconstruir a simplicidade do espanto em palavras? Haverá maneira mais criativa e sensorial do que o choque de ler um poema pela primeira vez e parecer que já o conhecemos antes de nascer? Energia essa movida por uma força contagiante, quase sobrenatural, trazendo consigo uma emoção que se ergue da pele. A inocência está connosco até ao fim dos dias, tão apaixonada por poesia antiga e definida pelo seu mistério sufocante e intolerante à racionalidade do pensamento.

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"A Lei do Desejo", de Pedro Almodóvar

Em tempos como este é de extrema relevância normalizar certos temas e aspetos socialmente e até culturalmente. Humanizar questões tão humanas e privadas por natureza é, na minha perspetiva, um dos objetivos mais importantes do artista. A obra cinematográfica que se arrisca em apostar nesses temas escondidos atrás da porta tem, à partida, a minha admiração. Pelo simples caso de querer transparecer para o cinema tabus e ideias que ninguém menciona em conversas, mas que todos sabem e conhecem de cor e salteado. Isto mostra, pelo menos neste filme, que o artista sensibiliza-se em demasia com a imagem. Ter uma queda emocional pela cor dos lábios da protagonista, ou então, ser dramaticamente exagerado na maneira como se pretende enquadrar a saudade inerente no olhar do homem que não disfarça a sensualidade evidente do protagonista, é absurdamente especial nesses filmes.


No filme “A Lei do Desejo” a palavra perde a sua importância. Palavra como passageiro na viagem até ao mais secreto e íntimo do espectador que quando termina o filme dá por si a pensar durante horas sobre o que acabou de ver. Não desvalorizando o seu enredo bastante dinâmico e criativo, com uma vertente religiosa fortemente presente, numa Espanha da década de 80, extremamente católica e devotada às suas crenças. Nota-se, de longe, a força que isso possuía na época, sendo algo que em muitas famílias de muitas gerações passadas e até de hoje em dia, estaria sempre presente em todas as circunstâncias e contextos da vida. Inclusive, um dos últimos planos do filme, apresenta-nos a relação amorosa e tóxica entre o protagonista e o seu amante. O plano desta cena, através das suas características relembra-me, inevitavelmente, a morte de Cristo nos braços de Nossa Senhora, representado, por exemplo, na escultura "Pietá", de Michelangelo.

Através de, na minha opinião, um estilo com algumas semelhanças a uma novela, este filme que conta com António Banderas a interpretar uma das personagens principais, utiliza a distância física e emocional que pode haver dentro de nós para descrever o desespero que qualquer pessoa, enquanto ser humano, pode sentir e deixar refletir para as outras pessoas. As desavenças pessoais e até as que temos para com uma sociedade fechada e isolada que, enquanto indivíduos únicos, nos aprisiona de vergonhas e receios. O protagonista, um cineasta de renome, não aguenta o cansaço de existir para além da escrita e, provavelmente, não lhe é suficiente a realidade que cria nos seus filmes que toda a Espanha conhece e venera. Em dias iguais, enrolados num sentimento confuso e com o próprio protagonista sem entender nada sobre si mesmo, este acaba por permitir, a uma certa altura, que os que o amam sofram com ele. Algo ingrato e digno de uma identidade egoísta, mas que, ao mesmo tempo, neste filme, só quer amar e ser amado. Adicionalmente, algo que aprecio bastante neste filme é a comparação que se estabelece entre a homossexualidade e a necessidade de o esconder, sobretudo da família.

Aconselho a visualização deste filme, não apenas por tudo o que escrevi anteriormente, mas por ser uma obra que encanta pelo seu charme na maneira como as personagens são apresentadas e também por outros aspetos mais direcionados ao enredo e que são concretizados de uma forma única e bastante interessante.

 

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"O Despertar da Mente" de Michel Gondry

“O Despertar da Mente” é mais que um filme definido por um enredo desenvolvido num ecrã ao longo de uma hora e quarenta minutos. Para mim, consegue ser uma pintura abstrata de sonhos e pesadelos que toda a humanidade tem. A felicidade está no lugar onde a racionalidade do pensamento não consegue distinguir o sonho da realidade, como se estivesse num estado de hipnose em que não consegue perceber verdadeiramente se o que vê é o reflexo da luz da manhã, ou então, a escuridão da incerteza. Uma sensação que alguma imaturidade poderá levar à ânsia de querer perceber mais do que se deve e pode.


Este filme retrata na perfeição o que a emoção humana se pode tornar: uma fome tóxica que não se sacia, ou uma fonte de desejos que hiberna nos dias mais frios. Saber diferenciar a razão do sentimento é, sem dúvida, uma das maratonas mais complicadas na vida, sendo algo, simultaneamente, natural e que amadurece a individualidade de cada um. É como correr sem sapatilhas, nunca sabemos o que pode surgir no meio do caminho e estamos sempre com medo. A desilusão, o rancor e a solidão são todos discriminados pela sua nocividade, mas algo inevitável é o seu efeito positivo nas pessoas, tornando-nos sempre mais fortes e independentes dos outros e até de nós e dos nossos vícios. É como penso para mim desde há muito tempo, as coisas más também têm o seu fundamento, tornando a integridade da nossa existência honesta e sensata.

Regressando ao filme, na minha opinião, o que nunca poderia ser descrito visualmente conseguiu sê-lo. Mais que situações de desespero e angústia de ser abandonado e esquecido pelos dias que julgamos serem eternos, outras emoções puramente humanas e definidas pelo seu sentido próprio foram visualmente criadas na minha mente através deste filme. Situações que, novamente, todos nós já vivemos ou iremos viver, situações tão cruéis, mas, mais uma vez, tão comuns e vulgares. Somos definidos por isso, mais do que por aquilo que fazemos ou dizemos. É algo que nos modifica automaticamente. Os nossos sentidos são os recetores daquilo que nos é transmitido e do que acontece ao nosso redor, por isso, é a partir deles que conseguimos descobrir-nos ao longo dos anos. Não nos tornando dependentes das outras pessoas, mas sim cada vez mais independentes. Num filme que retrata a tristeza e raiva de ser esquecido por quem amamos, descobrimos no dia a dia e na energia pessoal do protagonista, como este ultrapassa esse sentimento, ainda para mais sendo esta a sua primeira relação amorosa e íntima. Como pode a primeira mágoa afetar um homem nos seus 30/40 anos, quão poderá essa pessoa mudar após ser deixado para trás pela pessoa que ama.


Para mim, a maior vantagem deste filme é a capacidade que tem de entrar na mente dos espectadores a partir da junção da imagem com o som. Na minha perspetiva, o som tem uma importância bastante relevante, pois intensifica a ideia de presença no filme ao espectador, quase como se ajudasse a que fosse mais interativo e realista. Os diálogos da mesma maneira são bastante fluídos com a imagem e o enredo e, apesar de algumas pontas ficarem por atar após a primeira visualização do filme, tudo parece certo. Como se fosse uma situação de prazer e felicidade, mas, ao mesmo tempo, de respostas ainda por dar. Contudo, o espectador sente-se realizado com o final, sabendo, simplesmente, que afinal há uma esperança para aquele casal.

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"Trust" - David Schwimmer

Será assim tão provável que o poderoso prazer carnal, definido por linhas tão sensíveis e imperfeitas, seja substituído por uma ideia irrealista e artificial? Quão possível será que uma mera coincidência de palavras pensadas e escritas numa tela digital se transformem numa emoção tão pura e corporal como o amor...? A ideia de robotizar uma energia tão característica pela sua timidez faz-me repensar no significado do amor e como este se transmite.

Dias contados por sentimentos instáveis, tanto na sua razão de ser como na imprevisibilidade do dia de amanhã, tão misteriosamente irrecusáveis e inevitáveis. Numa geração definida por uma forte ansiedade ofegante e contagiante, vemos algumas palavras a apodrecer no silêncio que vicia e ilude. O receio que poderá ser criado ou alimentado por esse universo digital e distante, nunca é o que realmente nos define como seres humanos.
O mais vulgar como a habitual conversa com os avós depois da escola, chega a ser um ponto de partida, ou então de rutura, algo que está sobretudo nas mãos dos pais e familiares. Esses que veem, por vezes, um jovem encurralado numa verdade desonesta e abstrata.
Por detrás da lua em que refugiamos o nosso sono todas as noites, está o inegável sufoco e, simultaneamente, o apetecível fruto preso no galho mais alto da árvore. Nunca poderemos adivinhar o dia de amanhã, e por isso é sempre relevante reconhecer atitudes diferentes e estranhas, estar ainda mais atento, saber observar qualquer situação menos comum e, sobretudo, comunicar. Reconhecer que nem sempre somos ou damos o nosso melhor no papel que desempenhamos dentro das relações familiares é algo muito importante e que poderá evitar futuros problemas. A base da compreensão é a capacidade de assumir os erros com a intenção de melhorar e não de suprimir a nossa identidade e as nossas intenções.
Quão perigosas poderão ser as redes sociais e a forma intrusiva como entram nas vidas das pessoas, sem estas, muitas vezes, sequer se aperceberem. As maneiras como infligem os comportamentos diários e uma série de outras situações relevantes para o dia a dia, causando uma mudança na forma de estar e de pensar do próprio indivíduo.
Prevenir e ter cuidado com a acessibilidade ao mundo digital deveria ser uma das maiores preocupações nos dias de hoje.

 

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"Spoiler Alert", de Michael Showalter

O que significam as paredes quando estamos separados pelo incisivo e intolerante subconsciente...? Nada, absolutamente nada. Vemos a nossa frustração colada ao reflexo de dias esperançosos em algo que nunca muda, que simplesmente não regressa. Porém, dentro do nosso corpo existe qualquer coisa que mantém viva a paciência e compaixão de que tudo tem uma razão, que resta a nós saber aproveitar as coisas más para evoluir, ou então, renascer. Aguardamos pelo inevitável, convictos de que somos maiores que a própria natureza das coisas. As estações não te esperam, não passamos de ápices em séculos de história. Ainda assim, para aquilo que realmente importa, podemos ser eternos.

Em "Spoiler Alert", sentimos o amor como numa pintura, uma junção de cores que nunca é devidamente equilibrada, que nos comove e move para além de fronteiras emocionais e até racionais.

Não cremos em nada que não seja fundamentado por paixão. Torna-se caso para afirmar que o amor é capaz de apagar rancores e tornar-nos pessoas ainda maiores.

Uma ferida ou uma ruga congelada, seja em cores ou não, pode mudar uma vida para sempre, preenchê-la ou esvaziá-la. Até o final da vida torna-se um pretexto para acordar, viver os dias e reviver todos aqueles dias perdidos.

A vida só é devidamente reconhecida quando nos apercebemos que o tempo carrega consigo a idade da felicidade, tristeza, orgulho e, também, desilusão.

"Midsommar"
Ari Aster
Um filme que se destaca pela sua versatilidade em fugir do comumente reconhecido na indústria cinematográfica do terror, mas que mantém toda a sua individualidade visual com rigor e evidente indiferença. Com uma visão determinada a contrastar, o aparentemente belo ao lado mais obscuro das emoções humanas.
Algo que aprecio bastante é a vontade de saciar algum tipo de desespero e, ao mesmo tempo, esconder respostas ao longo de todo o filme. Costumo pensar que o tempo é muito importante num filme, pois é nele que percebemos se a nossa fome foi realmente saciada, ou não. Ari Aster, como nos habituou, reforça o seu gosto em trazer um contraste desnatural entre a imagem, e a sua essência, e todo o enredo que se constrói.
Neste filme, conseguimos retirar uma história de amor incompreendida, de uma vontade de viver à força toda, mesmo que no fundo tenhamos a consciência de que não somos, nem nunca fomos, felizes. Percebemos a diferença que faz um luto forçado de uma noite tranquila e verdadeiramente compreendida. Adoro a maneira subtil como Ari utiliza todas as suas referências, por mais aterrorizantes que sejam, para abordar uma relação amorosa esgotada, que refugiava as suas palavras no pensamento das outras pessoas. A forma como a pureza do amor humano pode, também, reviver o pior de nós.
A maneira como a fome de viver pode queimar a própria vida antes de repararmos.
Gosto da confusão que o realizador pretende, de forma clara, criar no espectador. A ânsia que se acumula, o mistério do amanhã e quando, realmente, as personagens vão revelar-se num ambiente que coloca os seus maiores desejos e medos à prova. Pude retirar a ideia de que as maiores provas ao nosso ser acontecem quando menos esperamos. Temos de estar sempre preparados para nos respeitarmos, e aos outros.

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